A MÚSICA DO FILME
A MÚSICA DO FILME
Seleção de trilhas clássicas
UM CORPO QUE CAI (VERTIGO, 1958)
Embora eu não queira classificar ou ordenar esta lista, não resisti em colocar no topo dela esta obra-prima do gênio Bernard Herrmann. Uma trilha irretocável, pensada da primeira à última nota, carregada de significados. Desde a referência à “Tristão e Isolda” de Wagner aos arpeggios das harpas simbolizando a vertigem, esta é uma aula de música de cinema, assunto infinito para os afficcionados. Recomendo o livro de David Cooper que estuda profundamente o trabalho de composição da trilha: “Bernard Herrmann's Vertigo: A Film Score Handbook.”
Esta é uma seleção de filmes que trazem trilhas musicais especiais. Filmes escolhidos pelas composições marcantes, pelo uso criativo dos recursos musicais, ou pela originalidade da música. Sem classificação ou ordenação alguma, esta é uma sugestão de filmes que valem ser vistos ou revistos, em função de suas trilhas clássicas. A cada semana um novo título será acrescentado com um breve comentário. E você pode e deve opinar, sugerir, participar. Mande um e-mail com suas sugestões e preferências.
Viva a música dos filmes!
TUBARÃO (JAWS, 1975)
Sim, é chover no molhado. Mas como se trata de uma relação das trilhas “clássicas”, esta tem que constar sem falta, concorda ? Imagine-se no lugar do Spielberg quando John Williams veio com uma idéia de um tema principal baseado num motivo tão simples de apenas duas notas. Na verdade é simples apenas na concepção, pois logo se torna um belo exemplar do brilhantismo do grande mestre contemporâneo da música de cinema. Um dos signos mais fortes do cinema, copiado e referenciado inúmeras vezes ao longo das últimas dezenas de anos.
BELEZA AMERICANA (AMERICAN BEAUTY, 1999)
Esta trilha de Thomas Newman já é um clássico do cinema contemporâneo. Uma obra que é referência de sensibilidade e adequação. Cenas marcantes como a “dança” do saquinho ou a chuva de pétalas, são brilhantemente acompanhadas pela música peculiar do estilo de Newman, com suas percussões tonais e suas melodias delicadas e viajantes. Uma obra musical de muito bom gosto que foi certamente imitada muitas vezes ao longo dos últimos anos. A mais evidente talvez seja a música do próprio Newman para o fraco filme A Corrente do Bem (Pay it Forward, 2000).
A LENDA DO PIANISTA DO MAR (LA LEGGENDA DEL PIANISTA SULL’OCEANO, 1998)
Verdadeira aula de música de cinema do mestre Ennio Morricone. Como o próprio nome diz, o filme narra a história de um músico. Tema mais do que fértil para Morricone explorar todas as possibilidades do uso da música dentro de uma narrativa fílmica. Criado para a primeira produção americana de seu habitual parceiro, o diretor Giuseppe Tornatore, a música é absolutamente essencial. Se você ainda não “ouviu” este filme, por favor, desligue já este computador e corra até sua locadora.
(C)2010 Tony Berchmans
007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO (DR. NO, 1962)
O guitarrista Monty Norman criou o tema principal e assina a composição desta primeira trilha de 007. Mas foi John Barry quem fez os arranjos e orquestrações e com sua sonoridade jazzística acabou se consagrando como o músico da série. Barry compôs vários títulos de James Bond depois deste início. Aliás, esta trilha é a menos característica do estilo arrojado e aventureiro do agente inglês. Nos filmes seguintes, John Barry foi moldando a personalidade musical da série.
SETE HOMENS E UM DESTINO (THE MAGNIFICENT SEVEN, 1960)
Clássica música do gênero western americano composta por Elmer Bernstein (pronuncia-se Bérnstin). Não confundir com o maestro Leonard Bernstein (pronúncia Bérnstáin). Elmer compôs uma espécie de ode à tradição sinfônica e grandiosa das trilhas do gênero. O tema principal se tornou um símbolo musical do universo do cowboy americano e foi até usado durante muitos anos como “a música do mundo de Marlboro”, nas campanhas publicitárias do famoso cigarro.
Última atualização: 14/07/10
E O VENTO LEVOU (GONE WITH THE WIND, 1939)
Clássico por clássico, aqui vai um dos maiores. O tema de “Tara” é talvez a melodia mais conhecida da história do cinema. Composta por Max Steiner, mestre austríaco considerado por muitos o pai da música de cinema tradicional, a trilha do filme é um verdadeiro modelo da composição romântica do período da era dourada de Hollywood. Ao longo de toda esta obra, Steiner usou largamente o recurso do “leitmotif”, de se criar motivos musicais para cada personagem ou situação.
RIO 40 GRAUS, 1955
Este clássico do cinema nacional do diretor Nelson Pereira dos Santos tem uma trilha sonora musical especial. O tema principal é o belo samba “A Voz do Morro” de Zé Kéti, e a composição orquestral é do grande maestro Radamés Gnatalli, uma das figuras mais importantes da história da música brasileira. Além de toda sua vasta obra que derruba os limites entre o erudito e o popular, maestro Radamés também dominava com excelência a arte da composição de música para filmes. Este é apenas um exemplo de uma música descritiva, sinfônica, brilhantemente arranjada e que usa o tema principal de Zé Kéti com muita sensibilidade e adequação ao filme.
O PODEROSO CHEFÃO (THE GODFATHER, 1972)
Uma das obras-primas do maestro Nino Rota. A música tem um papel absolutamente fundamental no filme todo ao criar uma personalidade sonora única para a história. Além de estabelecer o clima musical do filme, Rota - fantastico melodista - compôs vários temas belíssimos. O tema de amor se tornou uma das melodias mais conhecidas do cinema. Um clássico indispensável.
GUERRA NAS ESTRELAS (STAR WARS, 1977)
Mais um sucesso popular do mestre John Williams, verdadeiro hit-maker da música de cinema. Bebendo nas fontes românticas de Wagner, Strauss e Berlioz, e claramente inspirado pela obra de Erich W. Korngold, John Williams criou um dos temas principais mais conhecidos da atualidade. Aliada a uma saga que conquistou milhões de fãs no mundo todo, sua música virou símbolo da trilogia, atraindo multidões a concertos em que seus temas são executados.
IL BUONO, IL BRUTTO, IL CATTIVO (TRÊS HOMENS EM CONFLITO, 1966)
O tema deste filme é um símbolo do faroeste italiano. Il Maestro Ennio Morricone criou uma “cara” musical para este gênero fazendo uso de guitarras, assobios, gritos e afins. Este é o terceiro filme da trilogia criada pelo diretor Sergio Leone iniciada pelos filmes Por um Punhado de Dólares e Por um Punhado de Dólares a Mais. Os três são importantes referências do estilo irônico e bem-humorado, mas acredito que o tema deste terceiro é uma das melodias mais conhecidas e marcantes da história do cinema.
PSICOSE (PSYCHO, 1960)
Uma das trilhas mais imitadas da história do cinema foi composta pelo mestre Bernard Herrmann para uma orquestra só de cordas. Dentre as muitas histórias fantásticas deste clássico, talvez a mais famosa seja a cena do chuveiro. O diretor Alfred Hitchcock não queria música durante a cena. E Herrmann acreditava que a música seria fundamental para o sucesso dela. Então, sem o conhecimento do diretor, ele compôs e gravou um dos trechos mais celebrados de sua obra, em que os movimentos dos violinos simbolizam as facadas do assassino e seu som terrível repercute os gritos da vítima.
DOUTOR JIVAGO (DOCTOR ZHIVAGO, 1965)
O “Tema de Lara” traz uma das mais conhecidas melodias da história. Seu compositor, o mestre francês Maurice Jarre, falecido neste ano, relatava com contido orgulho que sua canção foi tão exaltada na época do lançamento do épico, que o álbum da trilha sonora superou os Beatles nas paradas do sucesso durante semanas. Todo este êxito teve um grande custo para o compositor já que o próprio processo de produção da música do filme foi quase um épico em sua vida. Mas além do tema consagrado, a música é grandiosa, romântica e acompanha com extrema sinergia a dramática saga do Doutor.
KING KONG (1933)
Trata-se da produção original de 1933. Considerado por muitos estudiosos como um marco da história das trilhas sonoras, esta grandiosa composição foi escrita por um dos pais da música de cinema tradicional, o mestre austríaco Max Steiner. Nesta obra muito bem sucedida, Steiner consagra a forma da descrição musical sincronizada com a ação do filme. Os movimentos, intenções e sentimentos dos personagens são comentados brilhantemente pela sonoridade sinfônica da trilha, com brilhante adequação emocional e avançada técnica de composição descritiva para a época.
OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (RAIDERS OF THE LOST ARK, 1981)
O monstruoso talento melódico de John WIlliams é um dos elementos que o credenciam como um verdadeiro hit-maker do cinema. E esta trilha é um claro exemplo disso. O tema principal se transformou em sinônimo musical de aventura. Símbolo imediato de situações de ação e coragem que acompanha toda a saga do arqueólogo mais famoso do cinema. Quer mais clássico que esse ? Uma melodia simples, mas muito poderosa. Só poderia se transformar num clássico do cinema.
TAXI DRIVER (1976)
A última trilha de Bernard Herrmann. O mestre nos deixou na véspera do natal de 1975, no dia seguinte à última sessão de gravação do filme de Scorsese. Uma trilha fantástica e marcante que se tornou um clássico do cinema, citado, reutilizado e copiado em muitas outras obras. É fascinante analisar como a música consegue relacionar o universo urbano com o perfil psicológico peculiar dos personagens, usando um variado vocabulário de estilo e artimanhas de composição entre o jazz e a música sinfônica. Uma obra de um mestre que dominava a arte como poucos num estágio máximo de sabedoria.
CINEMA PARADISO (NUOVO CINEMA PARADISO, 1988)
Durante o primeiro concerto de Ennio Morricone no Brasil, realizado na abertura do 1º Festival de Música de Cinema no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 2007, pude confirmar a força dramática do tema principal desta trilha clássica. Uma das composições mais sensíveis e belas da história do cinema, ela arrancou lágrimas de quase todos os presentes. Uma aula de música e de cinema ministrada por um dos grandes professores. Eu diria que a trilha de Morricone representa mais do que 50% do poder emocional do filme. A história é tocante e bem dirigida. Mas se não fosse a música...
AMARCORD (1973)
Uma das parcerias mais bem sucedidas entre diretor e compositor da história do cinema rendeu fantásticos frutos. Amarcord é um excelente exemplo dessa colheita, uma clássica trilha que resume muito bem o mundo musical que Nino Rota criou para Fellini. O diretor chegou a afirmar que Nino Rota fora seu maior parceiro criativo. A fabulosa composição de Amarcord é um belo exemplo dessa fértil colaboração que durou cerca de 30 anos. O melódido tema principal é um hino ao universo felliniano.
GLADIADOR (GLADIATOR, 2000)
Na linha dos novos clássicos, a trilha de Gladiador representa uma grandiosa obra de compositores contemporâneos de grande sucesso no meio dos fãs de música de cinema. Essa bela trilha de Hans Zimmer e sua eventual parceira Lisa Gerrard já pode ser considerada um clássico. Com sua sonoridade sinfônica que utiliza fartamente recursos da música eletrõnica, a música de Gladiador une com brilhantismo a tradição orquestral com a modernidade dos sons do século XXI.
LAWRENCE OF ARABIA (LAWRENCE DA ARÁBIA, 1962)
Um épico deste tamanho merecia uma música espetacular como esta obra clássica do grande Maurice Jarra, falecido recentemente. Como ele gostava de contar, entrou na produção deste filme na última hora e quase não acreditou no volume da responsabilidade que assumia. Acabou criando uma belíssima trilha que garantiu o primeiro Oscar de sua carreira. A melodia de seu tema principal é fortíssima e a música ao longo do filme faz várias referências ao universo das melodias árabes.
O SENHOR DOS ANÉIS (THE LORD OF THE RINGS, 2001-2003)
Howard Shore compôs uma vasta obra para a mega produção do diretor Peter Jackson. A música da trilogia (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei) é uma sinfonia volumosa poucas vezes vista na história do cinema. O premiadíssimo compositor fez uma enorme pesquisa para construir um verdeiro universo musical da terra média, território por onde trafega a saga de Frodo e seus amigos. Sem dúvida, um novo clássico da música de cinema.
BONEQUINHA DE LUXO (BREAKFAST AT TIFFANY’S, 1961)
Henri Mancini ganhou dois oscars com este filme. Um, pela clássica canção “Moon River” com letra de Johnny Mercer, e outro, pelo score. Um belíssimo trabalho que consolida a entrada da sonoridade do jazz nas trilhas sonoras orquestrais do cinema americano. O mestre Mancini talvez tenha sido o maior influenciador desta tendência e a música deste filme é uma de suas obras mais características, aliando seus talentos de melodista, arranjador e compositor de música de cinema.
A MISSÃO (THE MISSION, 1986)
Clássica dos anos 80, esta trilha de Morricone influenciou muitos compositores ao longo das útlimas décadas. Uma obra épica e ao mesmo tempo lírica e sensível, que consegue descrever brilhantemente o grito de defesa dos indígenas, o trabalho dos jesuítas e a brutal devastação imposta pelo homem branco. Mais uma aula de cinema do mestre Morricone que apresenta todo seu arsenal criativo de uso dos coros, melodias belíssimas, orquestrações grandiosas e mistura de temas descritivos.
CHINATOWN (1974)
Uma das minhas trilhas preferidas, um clássico score do mestre Jerry Goldsmith, falecido em 2004. Ele contava uma divertida história sobre a concepção desta trilha. Logo na primeira reunião com o diretor Roman Polanski, Goldsmith, brincando, arriscou que iria usar quatro pianos preparados, trompete, harpas, cordas e percussão. Polanski se apaixonou a sério pela idéia e no fim a trilha teve exatamente essa instrumentação. Golsmith se divertiu muito com isso e acabou criando um score muito criativo, se tornando uma espécie de referência-homenagem aos filmes noir.
THE MATRIX (1999)
O clássico recente dos diretores irmãos Wachowski contou com uma música à altura da espetacular produção. A trilha original da trilogia - The Matrix, The Matrix Reloaded e The Matrix Revolutions - foi composta e produzida pelo compositor americano Don Davis, que contou com a participação de alguns outros artistas. Belíssimo exemplo de uma trilha que mistura brilhantemente uma sinfônica, coro e elementos da música eletronica contemporânea.
BEN-HUR (1959)
Miklós Rózsa foi um dos grandes compositores de Hollywood, professor de música de cinema, importante defensor da importância da trilha especialmente composta para os filmes. Mas grande parte do público cinéfilo reverencia este mestre por seus gigantescos scores épicos compostos para igualmente gigantescas super-produções. Ben-Hur é um exemplo arquetípico desta majestosa sonoridade sinfônica criada para acompanhar as grandiosas jornadas históricas. Clássico total.
EXPRESSO DA MEIA-NOITE (MIDNIGHT EXPRESS, 1978)
Um belo exemplo da linguagem eletrônica que veio aparecendo na música de cinema nesta época. O compositor italiando Giorgio Moroder ganhou seu primeiro oscar pela trilha original deste excelente filme do diretor Alan Parker. Um dos pioneiros da popularização do sintetizador nas trilhas sonoras de cinema, Moroder compôs uma marcante melodia para o filme e se tornou um clássico contemporâneo.
EDWARD MÃOS DE TESOURA (EDWARD SCISSORHANDS, 1990)
Um clássico dos anos 90, a a bela música de Danny Elfman para um dos maiores sucessos do diretor Tim Burton virou uma espécie de referência para este gênero de fábulas narradas numa linguagem pop contemporânea. O famoso ex-integrante do Oingo Boingo é um dos compositores mais conhecidos de Hollywood e esta trilha tem muitos elementos que consagraram seu estilo peculiar: Singelas celestas, rica e colorida orquestração, melodias misteriosas, coros angelicais, humor negro e sarcasmo na medida exata.
CIDADÃO KANE (CITIZEN KANE, 1941)
Este filme pode ser considerado um clássico também pela música original do mestre Bernard Herrmann. Logo em sua primeira composição para cinema, Herrmann inovou ao usar formas não usuais aos padrões da música de cinema da época. Escreveu vinhetas curtas para descrever determinadas passagens e extendeu a cor de suas orquestrações usando as possibilidades mais modernas de gravação da época, como misturar os leves sons das madeiras (fagote, clarinete, oboé...) com potentes tambores percussivos.