A MÚSICA DO FILME

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O Ano em que meus Pais Saíram de Férias




 


O sucesso de um filme dá-se por vários motivos. Uma interpretação de um ator específico, um roteiro super envolvente, uma fotografia de extrema sensibilidade, uma direção majestosa, são quesitos que transparecem não só na escolha do público em assistir, mas também na formatação de uma “obra de arte”. O filme “O ano em que meus pais saíram de férias” possui todos os quesitos acima, o que demonstra um momento de maturidade e profissionalismo do cinema nacional.


Porém um dos quesitos que mais me fascinou no filme está a cargo da trilha sonora. Sensível, direta e consciente do seu papel dentro da obra audiovisual. A música possui um caráter envolvente que a posiciona não somente como acompanhamento da cena, mas preferencialmente com uma importância semântica na narrativa fílmica proposta. Ao final do filme, não pude sair do cinema antes de ver grande parte dos créditos, a fim de saber quem era o compositor de tamanha obra arte: Beto Villares.


Um compositor novo atento às novas tecnologias e à música contemporânea. Em seu currículo, além do trabalho autoral Excelentes Lugares Bonitos, lançado pelo selo Tratore, produções de artistas de grande porte, como o disco Sortimento de Zélia Duncan, Ao vivo da banda Pato Fu, além do projeto Música do Brasil de Hermano Vianna. No que diz respeito à trilha sonora, pensei ser um compositor novato. Engano meu! Em seu currículo filmes como Abril Despedaçado de Walter Salles, Cidade Baixa de Sérgio Machado, Menino Maluquinho 2 – A aventura de Fernando Meirelles e Fabrizia Pinto, e séries para TV,como Antonia(2006), Filhos do Carnaval(2005) e Cidade dos Homens(2003).


O filme “O ano em que meus pais saíram de férias” traduz um período brasileiro, onde ativistas políticos, tinham que se esconder(tirar umas férias) por um tempo, para não ser pego pela polícia, durante a ditadura militar. Apesar do cenário político estampado no filme, a real temática era a Copa do Mundo de 70. Esse é o mundo de Mauro, protagonista do filme. A ansiosa espera pela volta dos pais durante a Copa passava a ditar o novo percurso durante esses dias. Durante essas férias, ficaria na casa do avó, que pontualmente, morria naquele momento em que o neto chegava à sua casa. A partir daí,Mauro passa a integrar o novo ambiente, sem família e acolhido pelos amigos do avó e sua vizinhança. Particularmente, uma nova amiga era feita, Hannah, parte essencial e brilhante dentre as interpretações. Outro pano de fundo do filme é o judaísmo, pontuado pelo amigo do avó, futebol entre judeus e italianos, música, gastronomia e orações.


Todo esse cenário, foi suficiente para o compositor Beto Villares, captar com sensibilidade essa temática e o mundo interno do personagem Mauro, frente a um desconhecimento camuflado daquele período da história brasileira.

Canções como Telefone e Atrás do fusca relatam esse mundo de Mauro, seja no clarinete solitário que remete à espera dele por uma ligação dos pais, ou na nota solitária do piano na segunda música. Dois temas realmente muito inspirados. Transparecendo outro lado da trilha estão as músicas Provador (um bolero bem destacado da década de 70), Escondidos (tema de suspense) e Irene (tema sobre a mulher inalcançável e admirável, logicamente bem mais velha que Mauro) que transportam ao universo dos amigos da mesma idade, tais como Hannah, a detentora do esconderijo que via dentro do provador.

Fazendo parte da pesquisa sobre os judeus, Beto cria as músicas Chiribim Chiribom, Tzena Tzena e Sim Shalom, temas que nos transportam ao mundo que o protagonista passaria a conhecer.

Destacado na trilha sonora, temos a música de Roberto Carlos utilizada somente em um Bar Mithzvam de um garoto, a canção “Eu sou terrível”. Logicamente, pontual dentro da narrativa.


Em resumo, estamos diante de uma grande obra de dois artistas: do diretor Cao Hamburguer e do compositor Beto Villares. Um novo conceito de cinema, uma nova sintonia entre imagem e som. Creio ser essa a grande mensagem direcionada a nós profissionais e criadores na área cinematográfica.

 

 

Márcio Brant
Mestrando em Cinema na Escola de Belas Arte da UFMG

 

 

(C)2008 Tony Berchmans

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