A MÚSICA DO FILME

Arraste-me para o Inferno (Drag me to Hell, 2009)

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Os mais jovens, ao ouvirem o nome do diretor Sam Raimi, o associarão imediatamente aos blockbusters do Homem-Aranha, ou ainda à produção de refilmagens de filmes de terror orientais como O Grito. Já os mais veteranos certamente lembrarão do cineasta como o criador da cultuada trilogia de "terrir" A Morte do Demônio (Evil Dead), que nos anos 1980 o lançaram para uma estável carreira cinematográfica. Arraste me Para o Inferno (Drag Me To Hell, 2009) marca seu saudável retorno ao estilo que o consagrou, com o diretor homenageando as antigas produções do gênero e provocando reações de medo, riso e nojo na platéia, tudo na mesma proporção.

Se em seus primeiros filmes Raimi contou com memoráveis scores compostos por Joseph LoDuca e Danny Elfman, para Drag Me To Hell ele buscou a colaboração do sempre competente Christopher Young, que para Raimi já fizera as trilhas de O Grito, O Grito 2 e Homem-Aranha 3. Indiscutivelmente Young é tarimbado em trilhas de horror, tendo despontado no final dos anos 1980 com seus memoráveis scores para Hellraiser e Hellraiser 2, sendo que ao longo de sua carreira vem realizando ótimos trabalhos para os mais variados estilos de filmes. Aqui, o compositor nos entrega simplesmente um de seus melhores scores, que sem medo de usar os clichês típicos do gênero, como o próprio filme a que serve os usa para criar algo maior, dotado de coração e talento.

Esta trilha sonora parece englobar praticamente tudo que de melhor Young já realizou, ao mesmo tempo em que captura, sem parecer uma mera cópia, o clima musical que seus colegas LoDuca e Elfman deram aos filmes de Raimi. Plenamente sintonizado com as intenções do diretor, o compositor faz uma bela homenagem ao gênero, criando uma música superlativamente deliciosa de se ouvir. É um score que não tem medo de soar exagerado, exuberante, gótico e ultrapassado, explorando as mais variadas vertentes da orquestra e a criatividade do coral. É algo, enfim, raro de se encontrar hoje em dia.

O álbum inicia com o tema "Drag Me To Hell", que é a força motriz de toda a trilha. Assim como a velha bruxa cigana Ganush recebeu os traços faciais do lendário ator Bela Lugosi, que no clássico O Lobisomem (1941) interpretou o filho de uma cigana, o tema musical de Young recebeu um solo de violino que remete diretamente à música do povo nômade. A bonita melodia é interpretada de modo clássico e refinado, complementada por um forte acompanhamento da orquestra e um coral portentoso. Aliás, o trabalho de coral ao longo da partitura é soberbo, indo da etérea e sinistra sutileza ouvida em "Mexican Devil Disaster" e "Ordeal By Corpse", até a cacofonia de pesadelo encontrada em "Lamia". Em "Black Rainbows" as vozes situam-se ao fundo, porém sua presença cria um clima verdadeiramente ameaçador.

Além do coral, há o emprego de elaboradas texturas orquestrais e combinações instrumentais criativas. Cadências de metais, cordas graves e pizzicato, melodias etéreas ao piano, são algumas das maravilhas que agradarão o ouvinte, que também experimentará momentos de terror e dissonância musical em faixas como "Bealing Bells With Trumpet" e "Buddled Brain Strain", exemplos de música de horror da melhor qualidade ao lado de "Lamia" e"Auto-Da-Fe", que agregam à orquestra o sempre efetivo órgão de igreja.

Como se nota, pontos altos este score possui vários, já a começar pela faixa inicial. Mas não há como deixar de ressaltar a fantástica "Loose Teeth", que em seus sete minutos combina o fantasmagórico coral feminino, o tema do violino cigano, a orquestra dissonante e um vocal masculino gutural que dá à música um caráter monstruoso, e a faixa de encerramento "Concerto to Hell", que expande o violino da faixa de abertura em um concerto plenamente orquestral dos principais elementos da trilha sonora. É a conclusão perfeita de um trabalho que, de tão exuberante e gloriosamente exagerado, poderá provocar uma overdose musical em alguns aficionados da música do cinema. Mas isso, felizmente, graças à grande quantidade de idéias criativas e interpretações "suculentas" da orquestra e do coral, com menções honrosas para os solistas  Joohyun Park e James Speight. Acredite, por méritos legítimos nos mais variados aspectos, Drag Me To Hell é uma das melhores trilhas originais de 2009, em qualquer gênero.



Jorge Saldanha

Comentário sobre o CD da trilha de Christopher Young, por Jorge Saldanha

Nota do site: Este artigo foi originalmente publicado no site Scoretrack.net, do qual Jorge Saldanha é o editor. O Scoretrack existe há 10 anos e é considerado o melhor site brasileiro sobre música de cinema. Conheça: www.scoretrack.nethttp://www.scoretrack.net