A MÚSICA DO FILME

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008)

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Um dos mais talentosos compositores de música de cinema da atualidade, Alexandre Desplat é um francês que embora tenha um extenso currículo no cinema de seu país desde os anos 90, somente começou a ser reconhecido no mundo inteiro pela música de filmes mais famosos como Syriana (2005), Moça com Brinco de Pérola (Girl with an Earl Earring, 2003), e O Despertar de uma Paixão (The Painted Veil, 2006). Nestes dois últimos, Desplat apresenta um estilo essencialmente romântico e lírico, com belas melodias, coloridas orquestrações e temas muito delicados e emotivos, numa tradição que lembra o estilo de compositores franceses como Maurice Jarre e Georges Delerue. Guardadas as devidas diferenças e atualizações, o próprio Desplat assume que traz em sua bagagem cultural grande influência da escola do score francês de se preocupar mais com o “clima” do que com “correr atrás da imagem”.


Neste belíssimo score, Desplat demonstra toda sua maturidade de talentoso compositor ao abrilhantar a curiosa história. Há um primeiro tema principal cuja melodia se inicia com 12 notas e que já parece descrever algo de bizarro logo na sequência da história do relojoeiro Mr. Gateau.


Desplat usa com muita inteligência e sensibilidade particularmente instrumentos de percussão tonal, como o vibrafone, celesta, e o próprio piano. Pela segunda vez está concorrendo ao Oscar de melhor música original. A primeira vez foi há dois anos atrás com a música de A Rainha (The Queen, 2006). Na minha opinião, apenas a citada sequência que acompanha a narração do relojoeiro já o credencia para concorrer a um prêmio. A música desta cena começa com uma base cuja combinação de instrumentos é única e difícil de se descrever, muito distante dos padrões habituais da sonoridade convencional orquestral hollywoodiana.


O score de Desplat divide a trilha sonora do filme com várias canções jazzísticas que fazem referência à época em que se passa a história. Mas essa partilha não tira nem um pouco da força que a composição de Desplat adiciona ao impacto emocional do filme. Este é um ponto que se assemelha à estrutura de Forest Gump, similaridade que muitos críticos adoram alardear.


O segundo tema principal parece ter sido escrito para acompanhar o aspecto generoso do personagem e está presente em cenas mais delicadas, como a sequência do diálogo das duas crianças embaixo da mesa ainda na parte inicial do filme. Num arranjo singelo de harpas, a música dialoga brilhantemente com a fala dos personagens e embora Desplat não “corra” atrás da imagem, notavelmente este trecho é um exemplo de como a música acompanha com sensível sincronismo a conversa dos personagens.


O terceiro tema principal soa como uma mistura romântica de John Barry com Maurice Jarre. Digo isso no melhor sentido de elogio e não como uma acusação de referência direta. Afinal, conseguir soar parecido com um desses mestres, já é outro motivo suficiente para concorrer a um prêmio. Esse tema é mais triste e aparentemente se faz audível nos momentos mais melancólicos, como por exemplo quando o protagonista sai de casa.


Há outros temas que parecem acompanhar determinadas situações. Por exemplo há uma valsa composta para um determinado romance de Button. Ou ainda trechos de ação que ganham fraseados mais acelerados, percussivos e frenéticos. Mas todos esses temas se misturam, intercalam e sempre com escolhas orquestrais muito interessantes.


Esse trabalho meticuloso de orquestração e arranjo aliado ao sensível trabalho de contraponto, melodia e harmonia dão à música deste filme uma personalidade muito distinta, rica em emoção, colorida em sonoridade e mais do que adequada ao estilo do filme. Enfim um belíssimo trabalho que na minha opinião seria um dos favoritos ao Oscar deste ano.



Tony Berchmans

Comentário sobre a trilha de Alexandre Desplat, destaque de Janeiro de 2009