A MÚSICA DO FILME
A MÚSICA DO FILME
Um Espetáculo da Música de Cinema com John Williams
Final do verão, sob o céu limpo e o tempo agradável das colinas de Hollywood, quinze mil pessoas em duas noites inesquecíveis de celebração da música dos filmes. Assim foi o clima dos concertos apresentados e regidos pelo grande mestre John Williams no maior anfiteatro a céu aberto das Américas, o Hollywood Bowl, em Los Angeles, nos dias 29 e 30 de agosto de 2008. Acompanhado pela virtuosa precisão da Orquestra Filarmônica de Los Angeles, algumas peças do programa ainda foram acompanhadas por projeção de trechos de filmes, numa montagem de imagens editadas especialmente para a ocasião.

A concha acústica do Hollywood Bowl
Há 30 anos John Williams faz concertos sinfônicos e neste ano vem comemorando esta data com algumas apresentações nos EUA. Estes concertos de LA apresentaram algumas de suas obras mais conhecidas e incluíram um tributo à tradição musical de Hollywood, através de uma homenagem ao diretor Stanley Donen. Eu e meus amigos igualmente fanáticos tivemos a primeira oportunidade de estar num concerto do tio John – apelido carinhoso – e para não perder nenhum detalhe estivemos nas duas noites seguidas.
O Hollywood Bowl é um anfiteatro gigante construído sobre uma colina, de modo a aproveitar o relevo natural em forma de arquibancada. O palco é uma enorme concha acústica cujo projeto arquitetônico possibilita uma acústica excelente. O Bowl é administrado pela prefeitura de Los Angeles e fica ao norte de Hollywood, ligeiramente afastado do movimento da cidade, num local com grande área verde em seu entorno. Muita gente chega bem cedo para aproveitar as áreas de piquenique, os restaurantes ou simplesmente para tomar um bom vinho nos camarotes. Um lugar realmente especial, onde durante os concertos ouve-se o som dos grilos dos bosques ao redor.
A voz que anuncia a mensagem de abertura, precede a entrada da spalla Bing Wang, primeiro violino da Filarmônica de Los Angeles. A orquestra está toda vestida de branco e igualmente de branco entra sob aplausos o simpático senhor de 76 anos de nome John Williams com a batuta na mão. Como é costume patriótico americano, os concertos são abertos pela execução do hino nacional. A primeira parte do concerto foi um tributo aos Jogos Olímpicos, em que tio John apresentou a “Olympic Fanfare and Theme”, tema oficial das olimpíadas de Los Angeles de 1984. De uns tempos pra cá, antes do tema olímpico, ele toca a abertura “Bugler’s Dream”, composta por Leo Arnaud. Na sequência, apresentou “Song for the World Peace”, belíssimo e menos conhecido tema composto para um concerto de ano novo de 1995 dedicado ao diretor musical da Orquestra Sinfônica de Boston Seiji Ozawa. O tributo olímpico foi fechado com uma brilhante interpretação do tema “The Olympic Spirit”, trilha musical de cobertura olímpica da NBC. Este tema foi acompanhado de um belíssimo clipe com imagens marcantes da olimpíada, com destaque para aplaudidas cenas do fenômeno americano Michael Phelps.
Então, John Williams agradeceu, pegou o microfone e contou estar muito feliz por mais um concerto no Hollywood Bowl. Disse que era um cara de muita sorte na vida e comparou sua relação profissional com Steven Spierberg a um casamento bem sucedido de 35 anos sem sequer uma briga. Contou que fez a música de um filme que falava de um garotinho que fora “emprestado” por extra-terrestres e que apesar disso os alienígenas não eram retratados como habituais vilões, e sim como seres com sentimentos nobres e evoluídos. Apresentou então uma suíte da música de Contatos Imediatos de Terceiro Grau acompanhada de uma montagem de cenas do filme.
Na sequência emendou o tema “Flight to Neverland” do filme Hook, talvez um dos menos conhecidos de Spielberg. Em seguida, tio John introduziu o contexto dos três trechos de Indiana Jones que tocaria. Primeiro sobre o tema “The Adventures of Mutt”, composto para o personagem filho de Indiana que aparece no quarto e mais recente filme da série, tio John contou que compôs pensando nos clássicos filmes de swashbuckling. Depois, sobre “Irina’s Theme”, contou que se inspirou nas fortes personagens femininas do cinema. Este tema foi ilustrado por uma montagem com cenas de mulheres famosas do cinema americano como Marilyn Monroe, Gloria Swanson, Kim Basinger, e mais de uma centena de clipes. E pra encerrar a primeira parte do concerto, tocou “Raider’s March”, o famoso tema principal da saga.
Após o intervalo, tio John voltou com seu grandioso arranjo para o tema “Hooray to Hollywood” e em seguida apresentou o simpático convidado especial da noite, seu amigo Stanley Donen. Consagrado diretor e coreógrafo de clássicos musicais da MGM, Donen tem 82 anos e entrou no palco caminhando como um jovem de 30. Para este tributo, tio John escolheu cinco notáveis canções de filmes de Donen para serem acompanhados ao vivo pela orquestra. A cada uma das performances sincronizadas, Donen e Williams conversavam um pouco para explicar como o filme e a música tinham sido feitos, etc. Este bloco do concerto foi fantástico pelo incrível trabalho de sincronismo entre as imagens e a orquestra ao vivo. A coreografia complexa, os movimentos, o sapateado, as pausas e tempos do filme foram precisamente acompanhados pela orquestra sob a impecável regência de tio John. A cena escolhida do filme Sete Noivas para Sete Irmãos (clássico da sessão da tarde) por exemplo, tem 13 minutos de duração com inúmeras mudanças de compasso, de andamento, de tema musical, etc. Ainda assim tudo estava preciosamente sincronizado. Realmente um trabalho de muita complexidade musical e técnica, absolutamente brilhante. No final do tributo, a pedido de tio John, Donen ainda ensaiou alguns passinhos de dança ao som de Cantando na Chuva, antes de se despedir sob uma chuva de aplausos.
Na sequência, tio John introduziu o tema de Sabrina, filme de Sydney Pollack. Explicou que como o filme de 1995 foi uma refilmagem do clássico homônimo de 1950, ele se inspirou na protagonista original vivida pela inesquecível Audrey Hepburn. O tema ganhou um impecável solo da virtuosa violinista Bing Wang. Então John Williams contou que há pouco tempo escreveu uma suíte-tributo a George Lucas e Steven Spielberg, os diretores que realmente o catapultaram à estratosfera de Hollywood. Assim, para o êxtase do grande público presente, ele apresentou uma suíte de Tubarão, Guerra nas Estrelas, Caçadores da Arca Perdida e ET o Extra-Terrestre. No momento em que o tema de Star Wars se fez ouvir, centenas de “sabres de luz” eram vistos espalhados abrilhantando a platéia escura, num espetáculo à parte protagonizado pelo fanático público da série. A cereja do bolo e coroação do espetáculo foi o final do tema de ET com a fanfarra emocionante que encerra também o filme. Um final perfeito e fascinante para um concerto histórico.
Após uma torrente de aplausos, Williams voltou para o primeiro bis e de cara apresentou a poderosa “Imperial March” de Guerra nas Estrelas, onde além da maravilha da orquestração, o balé dos sabres de luz foi um divertido bônus. Evidentemente o público não tinha intenção de parar de aplaudir. Tio John então apresentou como segundo bis, um belíssimo arranjo do tema de Marion composto originalmente para o filme Caçadores da Arca Perdida. Por fim, o terceiro e último número do espetáculo, o tema de Superman, um clássico pra fechar a noite com chave de ouro. Tio John fez um simpático gesto de “vou nanar”, agradeceu e se retirou sob uma chuva de palmas.

Tony na entrada do Hollywood Bowl
Uma noite inesquecível, pelo conjunto feliz de orquestra impecável, regência soberba, acústica perfeita, tempo excelente, público caloroso e mais do que tudo, composições espetaculares. Marcante prova do fascínio que a boa música de cinema pode exercer no público. John Williams sem dúvida vai entrar para a história como um dos grandes compositores dos nossos tempos.
Tony Berchmans – Setembro/2008
(C)2008 Tony Berchmans