A MÚSICA DO FILME

(C)2008 Tony Berchmans

Porque Desejo e Reparação ganhou o Oscar de melhor música original ?






Artifício de uso raro na música do cinema popular, a integração de ruídos à composição da trilha musical foi algo preciosamente explorado pelo compositor italiano Dario Marianelli em sua premiada obra para o filme Atonement, que teve sua tradução o Brasil inutilmente adulterada para Desejo e Reparação. Estilisticamente, a música de Marianelli é romântica, fundamentalmente baseada numa orquestração sinfônica com piano. À esse universo, somou-se um instrumento nada usual: uma velha máquina de escrever. A história é narrada pela protagonista Briony, uma adolescente de fértil imaginação, que sonha em ser uma escritora com sua companheira inseparável, sua máquina de escrever. Numa interessante sacada de composição, Marianelli usou o som da máquina como se fosse um elemento percussivo, num fraseado sincronizado com trechos da música. A introdução do som da máquina no meio da composição, como um instrumento, é uma criativa referência à própria interferência de Briony ao interpretar os fatos a partir de seu ponto de vista peculiar. A música misturada com os sons “reais” representa a confusão da menina ao misturar coisas da sua imaginação aos fatos da realidade ao seu redor.


Além da interessante iniciativa de se usar este recurso, vale lembrar que para misturar sons não musicais com o score, é necessária uma grande sintonia entre o compositor, o diretor, e os sound designers, já que ao adicionar esses elementos à sua musica, Marianelli interfere diretamente no trabalho de desenho de som do filme.


Prova da sintonia entre compositor e diretor e outro exemplo de criatividade na criação da música é o trecho da grandiosa cena da retirada de Dunkirk. A música vem acompanhando uma multidão de soldados em uma praia, depois de uma batalha, à espera da retirada. A câmera se movimenta em um longo plano e surge um grupo de soldados cantando. Na mesma tonalidade, a emotiva música de Marianelli acompanha com perfeito sincronismo o coro dos exaustos militares.


Outro sutil exemplo interessante de uso da música que dialoga com o som direto, é uma cena em que a mãe do mocinho injustiçado se revolta contra as autoridades e começa a golpear o carro da policia com seu guarda-chuvas. Sua seqüência de golpes forma quase que uma contagem musical, um padrão rítmico que Marianelli espertamente usou para determinar o andamento deste trecho da música. Ele sampleou (gravou uma amostra digital) o som do golpe e assim como o som da máquina, o usou como um elemento percussivo, no ritmo da música, acompanhando um close da menina. É uma breve passagem quase imperceptível, mas que certamente simboliza um toque de excelência no acabamento do filme, uma cereja do bolo.


Na verdade, Marianelli não inventa a roda com esse artifício, isso propriamente não é novidade no cinema, tampouco na musica contemporânea. Mas certamente é um recurso criativo e pouco comum no cinema hollywoodiano. Apesar da forte concorrência deste ano (afinal tínhamos concorrentes como a espetacular trilha de Alberto Iglesias para O Caçador de Pipas), acho que o prêmio foi merecido.



Tony Berchmans

 

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